COMENTÁRIO:Escrevi este texto em 2004, em Brasília. Mostrei para alguns diretores e produtores de lá. Todo mundo gostou mas ninguém quis produzir. Um grupo de garotos e garotas pra quem dava oficinas de teatro na cidade de São Sebastião, Brasília, DF, me disse que leu mas não entendeu... Me senti o máximo...)
CEGUEIRA, A FARSA
Texto teatral em um ato
PERSONAGENS:
Cego 1- homem de meia idade, 40 anos, meio careca, cabelo embranquecido, nem gordo, nem magro, nem feio, nem bonito, estatura meã.
Cego 2 – mulher de meia idade, 40 anos, cabelo embranquecido, nem gorda, nem magra, nem feia, nem bonita, mais baixa que o homem cego 1.
Cego 3 – jovem homem de 19 anos, aproximadamente, nem magro, nem gordo, estatura média, se acha bonito.
Cego 4 – jovem mulher de 17 anos, aproximadamente, nem magra, nem gorda, estatura média, se acha bonita.
CENÁRIO
Palco nu, iluminação difusa, uma televisão com defeito ligada, no meio do palco, ao fundo. Cada personagem tem um espaço. Cego 1, do lado direito do proscênio, uma cadeira poltrona, um pequeno espelho ao lado, um telefone num criado mudo ao lado da poltrona; Cego 2, lado esquerdo do proscênio, cadeira poltrona, espelho maior ao lado, um suporte de cabide com todo tipo de roupa feminina; Cego 3, cadeira e mesa de escritório, telefone fixo, placa escrita “detetive particular” sobre a mesa, ao lado foto de Johny Rotten
com tarja preta sobre os olhos, escrito encima “No future!”; Cego 4, almofadas espalhadas no chão, espelho parecido com o do cego 3, mais enfeitado, foto de Gisele Bündchen, com tarja preta nos olhos, suporte de cabide com todo tipo de roupa feminina.
FIGURINOS
Cego 1 – Paletó preto, gravata, camisa social branca manga comprida, sapato preto.
Cego 2 – Vestido simples e de cor clara, sapato salto baixo. Quando vai “trabalhar”, se veste como uma boa “perua” deslumbrada.
Cego 3 – Paletó punk escuro, chapéu de detetive de filme noir americano, tênis discreto.
Cego 4 – Roupa comum de adolescente em casa. Quando vai “trabalhar” se fantasia de putinha jovem afetada.
ADEREÇOS DOS FIGURINOS
Todos os personagens usam óculos escuros e bengalas brancas
PEFIL DOS PERSONAGENS
Todos os personagens têm um traço comum: são cegos, mas se comportam como se não fossem, como se enxergassem, menos quando brigam e se agridem fisicamente; nesses casos tentam se acertar com suas bengalas mas não conseguem.
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(Toca telefone no espaço do cego 1)
Cego 1 – Carnes em geral... Sim, atende a domicílio... só atende a domicílio... não, não temos ambiente... Filé mignon, alcatra, contrafilé, maminha... Filé mignon? Sim, 100 reles a meia hora, mais meia hora, mais cem reles... Você escolhe... Mal passado, bem passado... Ok... Endereço? Sim, sim, sim... Bom proveito... Aceita cheque... pré-datado, não...! Bom apetite, senhor...(Põe telefone no gancho. Pega o telefone novamente e disca, toca o celular do cego 4)
Cego 4 (deitada sobre as almofadas, voz sensual afetada em falsete) – Alô... ! Sim, sou eu... Asa norte, de novo? Como era a voz dele? Parecia de um homem maduro? Sei, fala o endereço... Sim, tenho a grama do taxi... Ok... (Desliga o telefone. Levanta-se, troca de roupa, cantarola) Trabalhar, trabalhar, é melhor e não faz mal! (Faz evoluções pelo palco, como se fizesse strip tease, sai do palco)
(Toca o telefone do cego 3)
Cego 3 – Detetive particular... Sim, ele mesmo...A senhora perdeu o cachorro? Sim, claro, acharei o cachorro pra senhora, sem dúvidas... Claro, mas se a senhora trouxer o cachorro aqui, facilita as coisas... Sim, minha senhora, a senhora não ouviu mal... O problema é que
eu sou cego, minha senhora, se a senhora não me ajudar trazendo o cachorro aqui eu não tenho condições de achar seu cachorro... Certo, ainda bem que a senhora entende... O endereço? Anote aí... Ah, sei, a senhora tem o meu cartão? Sim, claro, lhe espero... Passar bem...
(Cego 2 troca de roupa, põe uma corda com uma coleira amarrada no próprio pescoço, sai do espaço e se dirige ao espaço do cego 3. Bate numa porta invisível. Cego 3 se levanta e abre a porta invisível, cego 2 adentra o espaço de cego 3)
Cego 2 (Voz sensual afetada em falsete, aproximando-se e apalpando atabalhoadamente o cego 3) – Oh, prazer em lhe conhecer, querido... Eu sou madame fulano de tal, meu lulu me fugiu outra vez, se você não achá-lo não sei o que poderei fazer de minha pobre vida... (Choramingando) Oh, minha pobre vida sem lulu...!
Cego 3 (Apalpando atabalhoadamente cego 2) – Controle-se, minha senhora, acharemos lulu em questão de horas... (Apalpando o pescoço de cego 2, nervoso e excitado) Essa é a coleira de lulu...?
Cego 2 (Nervosa, choramingando) – Sim, sim, essa era a coleira de lulu...
Cego 3 (Apalpando os seios de cego 2, irritando-se) - Oh, minha senhora, lulu é uma cadela... como poderei achar seu cachorro, se a senhora nem mesmo sabe o sexo dele...
Cego 2 (Livrando-se dos apalpos do cego 3, indignada) – Como ousa me chamar de cadela? Como ousa me apalpar os seios, seu detetivizinho de merda? (Choramingando) Oh, não, não se respeita mais as damas...! Oh, céus em que mundo vivo eu...? (Recompondo-se, indignada, ameaçando cego 3 com sua bengala) Mas isso não fica assim, não, seu indecentizinho de bosta, vou ligar agora mesmo para o meu marido oscar... Ele virá aqui agora mesmo tirar as devidas satisfações consigo, seu molestadorzinho barato de damas indefesas...(Tira o celular da frasqueira e disca)
Cego 3 (Indignado, ameaçando cego 2 com sua bengala) – Alto lá, minha senhora, mais respeito em meu estabelecimento... Pode parar com essa farsa de “meu marido oscar”... Conheço bem suas reais intenções... A senhora não perdeu cachorro coisíssima nenhuma, minha senhora, a senhora veio aqui a procura de outra coisa... O cachorro de seu marido se aqui vier vai conhecer o tipo de cachorro que a senhora anda a procurar... Sou um profissional sério e competente, não admito esse tipo de farsa. Não sou um garoto de programa, sou um detetive particular, minha senhora...
Cego 2 (Babando de indignação, ameaçando cego 3 com sua bengala) – Ah, não acredito no que ouço...! O bastardozinho insinua então que eu sou um dessas dondocas perdidas que anda a cata de rapazinhos para satisfação de seus mais baixos instintos? Acha então o canalhinha que eu inventei que perdi meu lulu para tentar achar alguém com outros objetivos que não achá-lo...? (Cego 3 começa a se despir) Não sei onde estou que não lhe cubro de porradas...
Cego 3 (Calmamente e apenas de cueca) – Relaxe, minha senhora, eu estou exatamente aqui a sua frente, controle essa bengala ou vai terminar machucando alguém... Aproxime-se de mim, sou um profissional competente e versátil... Entendo que a senhora está em estado de choque... Fui grosseiro consigo mas ainda é tempo de desfazermos os equívocos desnessários... Esqueça o que lhe disse minutos atrás...
Cego 2 (Entre perplexa e indignada, mas relaxando) – Oh, não! Então agora você é o profissional competente e versátil que de repente socorre uma dama emocionalmente descontrolada pela perda de seu cão de estimação? Transforma-se dum minuto pro outro no ser humano generoso que oferece despretensiosamente seus atributos sensuais para consolá-la em momento de fragilidade? Ok, ok, aceito seus préstimos... (Despindo-se também, ficando só de calcinha. Mudando o tom) Mas antes vou lhe mostrar com quantas artimanhas de sedução uma mulher carente é capaz de enlouquecer um trapo humano miserável e desprezível como você...(Os dois tentam se agarrar, buscam-se como dois perdidos num quarto escuro que não existe ali. Agarram-se, por fim)
Cego 2 – Oh, céus, que mal cheiro é esse? Chulé?
Cego 3 (Pondo a mão à boca) - Não, mau hálito, minha senhora...
Cego 2 (Desgrudando-se de cego 3) Argh!
Cego 3 (Desconsolado) – Hum, a senhora também cheira mal, madame... (Pega uma lupa sobre a mesa. Examina algo em sua mão com a lupa) Encontrei pelos de cachorro em seu corpo, madame...
Cego 2 (Tentando aproximar-se de cego 3, agressiva) – Oh, não! Dê-me esses pelos de meu cachorro, calhorda... Se não achá-lo, ficarei com esses pelos como lembranças do ser vivo que eu mais amei...
Cego 3 (Tentando aproximar-se de cego 2, com a lupa na mão) – Ok, madame, sem dúvidas, os pelos do cachorro são seus, por direito, mas preciso examinar mais seu corpo... seu corpo de delito, digamos assim, para colher mais material para enriquecer minha investigação, não me leve a mal...
Cego 2 (Condescendente, oferecendo-se ao cego 3) – Ok, não se acanhe, meu filho. Estou aqui, pode dispor de meu corpo... de delito...O que não farei para facilitar as investigações...?
Cego 3 (Alcançando cego 2, apalpando-lhe o corpo e examinando-o com a lupa) – Sim, madame, seu desprendimento me comove, mas há mais pelos de lulu em seu corpo de delito... Tem alguma explicação para isso...?
Cego 2 (Calma e serenamente) – Simples, meu garoto, lulu dorme em minha cama comigo... E eu durmo nua em pelo... Daí a existência dos pelos de lulu em meu corpo de delito...
Cego 3 (Calma e serenamente) – Elementar, cara senhora... Mas satisfaça minha curiosidade profissional, madame...
Cego 2 (Segura e decididamente) - Não, não satisfarei sua curiosidade profissional, garoto... Nelson Rodrigues ou uma outra mente tão pervertida não insinuariam o que o senhor ousa insinuar...
Cego 3 – (Súplice e humilde) Madame, por favor, ajude-me, sou profissional, apesar de minhas limitações... O que gostaria de saber
é com quem dorme seu marido...
Cego 2 (Desdenhando) Ah, sei... Essa pergunta me faz lembrar uma piada antiga e sem graça... Não, não é piada... Na verdade é fato real... Uma amiga minha, quando o canalha do marido chegava das noitadas com as perdidas com quem prevaricava, ela tocava-o da alcova com o cabo de vassoura, aos gritos de “vá dormir na casa do cachorro, seu vira-lata de quinta...”, rá, rá, rá, bons tempos aqueles...
Cego 3– Devo deduzir então que o seu marido dorme na casa do cachorro...?
Cego 2 – Negativo, não se engane com evidências óbvias, seu sherlolkizinho borrabotas...
Cego 3 – Madame, por favor, não percamos o fio das investigações... Estou chegando a uma dedução brilhante...
Cego 2 – Suas deduções brilhantes são de doer, mas vamos a elas...
Cego 3 – Seu marido seqüestrou lulu...!
Cego 2 – Isto até eu sei, idiota... A essa dedução cheguei antes de pensar em lhe procurar...
Cego 3 – O que me sugere, então?
Cego 2 – Não lhe sugiro nada... Lembro-lhe apenas do que me pediu quando lhe liguei... Pediu-me que trouxesse o cachorro comigo, lembra-se? Disse-me que era cego, mas pensei que apesar disso, enxergasse... Vejo que me enganei...
Cego 3 – Não tou entendendo mais nada...
Cego 2 – Você não é cego, na verdade é burro, apenas...
Cego 3 – Não me ofenda, madame, sou um cara sensível...
Cego 2 – Desculpe, sou apenas sincera, na verdade quero lhe ajudar...Você tem qualidades, inegavelmente...(Mudando o tom) Meu marido está vindo aí... O celular está ligado, isso você não percebeu, certo? Ele está ouvindo toda a nossa conversa...
Cego 3 – Seu marido então trará o cachorro?
Cego 2 – É o que veremos, acho que sim...
Cego 3 – Posso deduzir que o cachorro é do seu marido?
Cego 2 – Sim, de alguma forma, sim... Dentro de alguns minutos teremos aqui o cachorro de meu marido... Conheço sua natureza de perdigueiro irrequieto...
Cego 3 – Mas como saberá seu marido onde estamos...?
Cego 2 – Isso é algo que até você pode deduzir...Tem meia hora para fazê-lo... Aproveite o tempo para imaginar explicações razoáveis para tudo o que ele ouviu de desagradável e constrangedor na conversa que tivemos... A propósito, um conselho: pare com essas leituras de Samuel Becket... Dessa forma você nunca conseguirá ser um funcionário público ou um bancário, como seus pais ou avós...
(Cego 4 chega ao espaço de cego 1. Bate numa porta invisível. Cego 1 se levanta da poltrona e abre porta invisível)
Cego 4 – (Sensual, com intimidade) – Olá, esperou muito, querido?
Cego 1 (Sério, tenso) – Não tente me irritar com perguntas bobas...
Cego 4 – Pelo visto sua mulher saiu a procura de seu cão de estimação outra vez...
Cego 1 – Sim, e o que é pior, quis me envolver nessas tramas detetivescas, como se eu estivesse interessado em suas caçadas caninas...Telefonou-me do escritório de um detetive particular...
Está a minha espera... Deixei-a iludir-se que me interessaria por suas fantasias sem graça...
Cego 4 – Acho que ela precisa de um analista lacaniano...
Um amigo meu deu pra latir em pleno expediente, em meio a impropérios contra a cadela de sua mulher...
Cego 1 – Cada cão tem a cadela que merece...
Cego 4 – O analista lacaniano o fez confessar ter pesadelos com lembranças infantis de quando num cidadezinha do interior se divertia correndo pelas ruas atrás de casais de cachorros no pós-coito...
Cego 1 – Que havia de tão divertido no pós-coito canino pelas ruas de uma cidadezinha do interior...?
Cego 4 – Essa só meu avô que viveu numa cidadezinha do interior em sua adolescência, sabe e me contou... Os cães ficavam emendados pelos sexos por algum tempo, depois que gozavam... A molecada fazia a festa correndo atrás do casal de cães arrastando-se pelas ruas, não se sabe bem qual dos dois cachorros mais constrangido, a cadela por certo, fêmeas são mais suscetíveis a essas pequenas vergonhas públicas, o macho por certo se divertia com a cena, são preparados pra isso...
Cego 1 – Nunca imaginei ser isso possível, imaginava que o sexo canino era menos traumático...
Cego 4 – Sem dúvida... Segundo o analista seu paciente quer se auto-punir por aquelas malvadezas infantis...
Cego 1 – Seu amigo deve suspeitar que a cadela de sua mulher o trai...
Cego 4 – Sem dúvida, com o cão da vizinha, com quem já teve um caso...
(Pausa)
Cego 1 – Vejo que estás triste...
Cego 4 – E totalmente inapetente...
Cego 1 – Percebe-se... Brigastes novamente com o namorado?
Cego 4 – Rompemos definitivamente... Politicamente, claro, pretendemos manter o relacionamente amoroso, não misturamos as coisas...
Cego 1 – Isso é duma dramaticidade atroz...
Cego 4 – Sempre pressenti que a esquerda no poder, endireitava...
Cego 1 – Isso é velho como o descobrimento...Mas não entendo, acho ingênuo se imaginar no poder como esquerda... Poder é coisa de direita... Esquerda e poder são incompatíveis...
Cego 4 – É terrível constatar a ignorância da maioria do povo decepcionado com a esquerda no poder...
Cego 1 – Como assim...
Cego 4 – Imagina a esquerda chegando ao poder como chegou fazendo as alianças que fez... Não consegue minimamente fazer o que se propunha quando não era poder...
Cego 1 – A pergunta é: conseguiria a esquerda chegar ao poder sem as alianças que fez?
Cego 4 – Claro que não... Mas o que adianta chegar ao poder tendo que governar fazendo as alianças que tem que fazer para poder governar?
Cego 1 – Essa a questão: vale a pena a esquerda chegar ao poder pela via institucional?
Cego 4 – Brigamos por isso. Ele está disposto a tentar tomar o poder pelas armas... Só num processo revolucionário a esquerda chega ao poder e exerce o poder como esquerda, acha ele...O quanto isso tem de anacrônico ou absurdo só vendo pra crer, como se houvesse diferença entre exercer o poder conquistado pelas armas ou pelas urnas...
Cego 1 – Isso é tão antigo quanto as estória dos cachorros...
Cego 4 – A estória dos cachorros é real, na cidade grande os cachorros não vivem trepando pelas ruas... Nas cidades grande os moleques não se divertem correndo atrás de casais de cachorros emendados no pós-coito...
Cego 1 – É verdade...
Cego 4 – Tentemos dormir, então, talvez sonhemos que somos um casal de cachorros emendados no pós-coito, com uma chusma de moleques nos tocando rua afora... Seria divertidíssimo...Realmente
é muito mais emocionante ser cachorro numa cidadezinha do interior...
(Cego 2 e cego 3 saem do espaço de cego 3. Cego 3 puxa cego 2 pela corda com a coleira no pescoço. Dirigem-se ao espaço de cego
1. Param em frente ao espaço de cego 1)
Cego 2 – (Nervosa) Estou apreensiva, com mau pressentimento...
Cego 3 – Fique calma, você conhece bem o marido que tem...
Cego 2 – Sei não, sei não... (Pega uma chave na frasqueira, faz que abre uma porta imaginária. Ao abrí-la acendem-se as luzes do espaço do cego 1. Cego 4 está no colo de cego 1)
Cego 2 (Saindo do esapaço de cego 1) – Não, não, mil vezes não...
Cego 3 – Que aconteceu?
Cego 2– Ele está aí com outra mulher...!
Cego 3 – Oh, não...!
Cego 2 – Vocês são todos iguais...uns mais iguais do que...
Cego 3 – Não diga bobagem, por favor... Quer que eu chore por você?
Cego 2 – Você consegue?
Cego 3 – Posso tentar...
Cego 2 – Não, não tente, é impossível alguém chorar por inteposta pessoa, nos dias de hoje, não...
Cego 3 – Quem sabe... Presenciando a cena do crime, talvez consiga chorar sem grande esforço...
Cego 2 – Voce faria isso por mim?
Cego 3 – Sou acima de tudo, profissional...
(Cego 3 adentra espaço de cego 1. Sai do espaço transtornado)
Cego 3 – Eu desconfiava...
Cego 2 – Do que desconfiava...?
Cego 3 – Ela está aí dentro com ele...
Cego 2 – Ela quem, se não sou indiscreta...?
Cego 3 – É terrível... Ela me disse que tinha um amante... uma pessoa mais velha, madura... Tínhamos um relação aberta.... Não tenho nervos de aço... Sinto-me tomado por uma vontade incontrolável de chorar...Vou conseguir...
Cego 2 – Quer que eu cante uma das duas músicas...?
Cego 3 – Não, odeio fundos musicais... Um música é muito antiga, a outra é brega demais, há pessoas jovens ou suscetíveis a mau gosto musical na platéia, suspeito, não entenderiam a sutileza...
Cego 2 – Choremos, então... (Os dois choram desbragadamente abraçando-se)
Cego 3 (Olhando a reação do público) – Sintam só o descaso dessa gente que ri enquanto choramos...(Continuam a chorar)
(Os dois param de chorar, ajudam-se a enxugarem os rostos, se recompõem)
Cego 2 – Temos que pensar no que fazer de nossas vidas, daqui pra frente...
Cego 3 – Que tal fugirmos para um paraíso fiscal...
Cego 2 – Paraíso fiscal? Que diabo é isso...
Cego 3 – Quer dizer pra mim que não sabe o que é paraíso fiscal?
Cego 2 – Tem algum problema um cego não saber o que é paraiso fiscal?
Cego 3 – Problema não tem, mas é cegueira demais prum cego só...
Cego 2 – Tudo bem, mas explica aí mais a coisa, ô gênio das trevas visuais...
Cego 3 – Paraíso fiscal é um lugar onde as pessoas esquecem coisas...
Cego 2 – Lugar onde as pessoas esquecem... mas qual é a diferença, energúmeno, disso pra qualquer outro lugar...?
Cego 3 – Simples, minha linda, ou elementar, caro cego... Num paraíso fiscal as pessoas esquecem dinheiro...
Cego 2 – Pera, pera’í... Tá falando sério...? As pessoas esquecem dinheiro nesses tais paraísos fiscais...?
Cego 3 – Sim, querida, mas vamos melhorar um pouco o nível dessa conversa, deixemos essas trivialidades do dia a dia, e tentemos entender ou discutir coisas mais relevantes...
Cego 2 – O quê, por exemplo...?
Cego 3 – Vejamos... O destino da humanidade ou quem sabe, o porquê do sofrimento humano...por que estamos aqui, para que estamos aqui, para onde estamos indo...?
Cego 2 – Ai, adoro quando você fica cínico...
Cego 3 – Não fique tão íntima assim, madame, não percamos a objetividade, “hay que ser objetivo, pero sem perder la cegueira”, se me entende...
Cego 2 – Sim, por certo, não podemos esquecer o ridículo de nossa condição existencial nessa circunstância melotrágica ou kamikazika, coisa assim...
Cego 3 – Sem perder de vista que tudo começou com a fuga de seu cachorro... Esse é o fundamento da estória...
Cego 2 – História ou estória...?
Cego 3 – Isso é o de menos... Pãos ou peões, tudo é questão de opiniões...
Cego 2 – Temos que sair desse impasse afetoexistencial sem maiores traumas...
Cego 3 – O que fazer? Como diziam os antigos revolucionários...
Cego 2 – Taí, você achou a solução...
Cego 3 – Como assim...?
Cego 2 – Revolução é a solução...
Cego 3 – Explique-se, cego, começo a desconfiar que és louca também...
Cego 2 – Simples e objetivo, querido... Vamos lá dentro acordar aqueles dois cretinos que dormem um nos braços do outro e vamos propor a eles uma revolução...
Cego 3 – Revolução? Onde é que cê também quer chegar, cego...? Revolução não é coisa pra qualquer cego, não, fique disso sabendo, revolução é coisa séria...
Cego 2 – Relaxa, cara, tenho certeza que eles vão aceitar... Na verdade, isso pode ser o fim de nossos sofrimentos amorosos existenciais...
Cego 3 – Sei não... Você quer propor a eles o fim da luta de classes, por exemplo?
Cego 2 – Mais ainda, vamos propor a eles a anistia de nossas mágoas e ressentimentos...
Cego 3 – Mas eles nos traíram... Nós ainda não os traímos...
Cego 2 – Disseste-o bem, ainda não os traímos... Mas qual a diferença entre uma traição presumida e uma traição consumada...
Esquece-se que meu marido ouviu aquela conversa de pelos e corpo de delito? Hem!? Ou você acha que um tipo de machão canalha como o meu marido vai acreditar no profissionalismo de um detetevizinho e suas prospeções com lupa num corpo de delito em pelo a procura de pelos caninos...?
Cego 3 – Sua argumentação é irrefutável, reconheço, mas não tenho certeza que haja consenso entre as partes...
Cego 2 – O êxito da empreitada passa por um estratégia de abordagem bem urdida e executada...
Cego 3 – Tome as iniciativas, Golbery das transições matrimoniais mais ou menos sem traumas...
Cego 2 – Mais respeito com a amnésia alheia, idiota, a maioria aí não sabe de quem se trata...
Cego 3 – Vá em frente antes que seja tarde, daqui a pouco já é dia...
Amanhã, quem sabe, vai ser outro dia...
(Cego 2 adentra o espaço de cego 1, pé ante pé. Acorda-o com um beijo. Cego dois aconchega-se a cego 4)
Cego 2 (Rodopiando e saltitante) Bom dia, pombinhos...!
Cego 1 (Desvencilhando-se de cego 4 e levantando-se atabalhoadamente) – Que está a acontecer...? Em que tipo de pesadelo me meti...? Quem está aí...? (Cego 4 também desperta e
se levanta)
Cego 2 – (Aproximando-se de cego 1 e cego 4) Sou eu, fada do
bem, que veio acordar o casal de amantes em plena aurora de um novo dia... (Pega cego 1 e cego 4 pelas mãos leva-os para fora do espaço de cego 1) Venham, venham, venham ver o despertar de um novo tempo...
Cego 1 (Preocupadíssimo) – Oh, não Carmela, você esqueceu da medicação outra vez...!
Cego 2 – Não preciso mais de remédio, querido, encontrei o elixir
da longa vida... Fui tocada por um raio de luz, tive um êxtase místico, um insight, entrei em samadhi, fui iluminada, virei outra pessoa...
Cego 1 – Calma, Carmela, você não tá entendendo bem o que aconteceu...
Cego 2 – Não se preocupe, querido, não preciso que me explique o que aconteceu ou não aconteceu...
Cego 1 – Mas Carmela, deixe-me lhe explicar...
Cego 2 – Não precisa, oscar querido... As explicações quem dá sou eu... Passei por uma experiência traumática, é verdade, mas muito profunda... Percebi o quão inúteis e sem significados são nossos valores mais caros...Bens, propriedades, projeção social, tudo isso não existe... Tudo isso são traças que o tempo roi e os vermes transformam em esterco... (Aponta para o cego 4) Olhe bem para o semblante desta jovem... Há medo e infelicidade estampado em seu rosto... Há ansiedade e cobiça em seu olhar... Tudo por nada, tudo pra nada...
Cego 1 – Carmela, por favor, deixe-lhe explicar... Ela é massagista...
Chamei-a aqui para que me massageasse as costas... Estava com dores terríveis nas costas...Não aconteceu nada entre mim e ela...
Ela adormeceu inocentemente em meu colo...
Cego 2 – É inútil esse tipo de explicação que não leva a nada, querido... Estou aqui para lhe propor uma revolução em nossas vidas...
Cego 1 – Revolução, Carmela, para que revolução em nossas vidas, querida? Tá tudo tão bem do jeito que está...?
Cego 2 – O que proponho é socializemos nossos sentimentos, nossos afetos, nossos sentimentos, nossos bens mais caros...(Aponta para o cego 3) Olhe para aquele jovem tímido e indefeso... Foi ele que me induziu a essa idéia... Ele é um revolucionário... um radical... Quer
transformar o mundo a partir dos nossos sentimentos... Por acaso
também conhece aquela jovem... O acaso nos reuniu aqui com o
fim de encontrarmos a solução para nossas desencontradas vidas...
Cego 1 – Carmela, querida, você já foi longe demais... Acalme-se...
Não vou admitir por nada que você me proponha soluções que signifiquem a destruição dos valores mais caros da família e da sociedade... O que você propõe é o caos... A desagregação, a imoralidade, a falta de ética e do respeito... Proponho a solução mais à mão... Liguemos a televisão e não se fale mais nisso... Onde está o controle remoto? ((Procura atabalhoadamente o controle remoto.
Aproxima-se afetuosamente de cego 2, que senta-se ao seu lado em frente à televisão e passa-lhe o controle remoto. )
(Cego 3 e cego 3 se fitam, se aproximam, se abraçam. Se dirigem cada um para um lado do proscênio)
Cego 3 – O pior cego é o que não quer ver televisão...
Cego 4 – São cegos guiando outros cegos...
(Blackout. Pano rápido)
******************
Autor: Zeferino Alves Neto (ZAN)
Brasília DF, 21.07.2004
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
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