sexta-feira, 6 de novembro de 2009

T E X T O DO AUTO DE SANTO ANTONIO



CENA UM

(Cinco monges franciscanos chegam à porta do mosteiro dos agostinianos a procura de abrigo. O monge Ferdinando, futuro Santo Antonio, os recebe à porta e os convida a entrar)

FERDINANDO – Sejam benvindos, irmãos franciscanos, em nome de Jesus... -

FRANCISCANO UM – Em nome de Deus, irmão, estamos a procura de abrigo... -

FERDINANDO – Temos este abrigo, irmãos, adentrai nossa casa...

FRANCISCANO DOIS – Demoraremos pouco tempo, irmão, demandamos a terras da África... –
FERDNANDO – O que os leva a terras da África, irmãos?

FRANCISCANO TRES – Vamos trabalhar na conversão dos infiéis, como fez nosso pai... -
FERDINANDO – Quão nobre e arriscada é a vossa missão, irmãos...

FRANCISCANO QUATRO – Sabemos dos riscos que corremos, irmão, mas o martírio em nome do ideal cristão é o que buscamos ardentemente.. –

FERDINANDO – Comove-me profundamente, irmãos, o ardor com que vos entregais ao ideal da conversão dos infiéis...

FRANCISCANO CINCO – Buscamos o ideal da semente que pra germinar tem que morrer...
FERDINANDO – Maravilhoso esse ideal, irmãos, gostaria muito de seguir este exemplo de fé e desprendimento...


CENA DOIS


(Dez prepostos do Infante Pedro de Portugal chegam ao mosteiro de Santa Cruz trazendo os cinco caixões com os cadáveres mutilados dos frades franciscanos que tinham ido à Africa tentar converter os infiéis. Ferdinando está entre os superiores de seu convento que recebem os prepostos do infante)

PREPOSTO UM (Adentrando junto com os outros prepostos o portão de entrada do mosteiro de Santa Cruz) – Em nome de Deus, senhores, vimos a mando do Infante Pedro de Portugal, trazer-vos os corpos dos frades franciscano martirizados em África, para que recebam sepultura cristã… -

PRIOR DO MOSTEIRO – Sejam benvindos, sehores, em nome de Deus recebemos os corpos destes irmãos que se imolaram por nossa fé em Jesus Cristo…
(Os dez prepostos do Infante Pedro colocam os caixões no chão. Abrem os caixões. As reações dos monges agostinianos é de estupor com o que vêem. Ferdinando é possuido de forte emoção. Ajoelha-se ao lado de um dos caixões e reza com profunda devoção. Os prepostos do Infante levantam novamente os caixões)


PRIOR DO CONVENTO – Daremos sepultura cristã aos corpos desses nossos pobres irmãos…

(Segue o cortejo dos prepostos com os corpos, acompanhado dos monges).

CENA TRÊS

Comentário: esta cena também é muito dramática. Ferdinando reza compungidamente junto aos túmulos dos frades franciscanos. Um superior dele se aproxima e trava um diálogo com ele)

SUPERIOR – Irmão Ferdinando, estamos preocupados com você… Estais muito tocado com a morte dos irmãos franciscanos… -

FERDINANDO – Sim, irmão, a visão dos corpos mutilados me impressionou deveras… Sinto-me profundamente tentado a seguir o exemplo destes irmãos… Gostaria muito de seguir-lhes os passos de imolação pela nossa fé…-

SUPERIOR – Irmão Ferdinando, és muito jovem, entendemos-te o ardor juvenil, mas nos parece que os irmãos franciscanos levaram muito a sério a idéia de martírio…

FERDINANDO – Minha fé cristã se parece muito com a dele, irmão, morreria feliz dando testemunho vivo dessa fé…

SUPERIOR – Poderás dar exemplo de vossa fé tentando vivê-la na retidão de uma vida dedicada ao Senhor…

FERDINANDO – Irmão, perdoai-me a soberba, mas não sossegarei enquanto não imolar minha pobre vida por Cristo Jesus, como fizeram estes irmãos…

(O superior abraça Ferdinando como a um filho e assim ficam até o fim da cena)






CENA QUATRO


(Ferdinando aproxima-se do Prior do convento. Demonstra profunda emoção com o gesto)

FERDINANDO – Gostaria muito de lhe falar, irmão Prior, dê-me licença de fazê-lo…

PRIOR – Sim, irmão, fale o que me quer dizer…

FERDINANDO – Irmão Prior, desde o dia que recebemos os corpos dos irmãos franciscano, uma idéia me ocupa a cabeça…

PRIOR – Sim, irmão, tenho sabido da preocupaçãos de teus superiores imediato com essa sua… obsessão…

FERDINANDO – Irmão Prior, gostaria que me desses permissão de abandonar nosso mosteiro e me tornar frade franciscano…

PRIOR – Irmão, vejo que estais tomado de forte emoção, vou pedir-te que converse com o cônego Amaro, quem sabe ele te dissuada dessa idéia, sois um monge promissor em nossa ordem, obediente, dedicado ao estudo como poucos, não gostariamos de te perder por um arroubo juvenil de entusiasmo…

FERDINANDO – Farei isso, senhor… Verás que meu desejo não é só um arroubo de emoção juvenil…

PIOR – (Saindo de cena)Vai em nome de Deus, irmão, juízo, juízo, Ferdinando…

CENA CINCO

(Entra em cena o cônego Amaro)

CÔNEGO AMARO (Cenho cerrado, cara de poucos amigos) –
Irmão, Ferdinando, fiquei sabendo do irmão Prior, vosso interesse em deixar a ordem… -
FERDINANDO – Sim, cônego Amaro, estou determinado a me tornar frade franciscano… -

CÔNEGO AMARO – Irmão, entendemos que estais tomado de forte emoção pela cena dos irmãos franciscano que viraram mártires…mas vos chamamos à razão… Nossa ordem tradicional, tem uma história secular… Os irmãos franciscanos são uns pobres monges mendicantes…incultos e ignorantes… Sois um monge culto, apesar da idade…

FERDINANDO – Cônego Amaro, tenho em meu coração o fogo da paixão pelo martírio…

CÔNEGO AMARO (Irritado) - “Pois vai embora, vai! Decerto vais tornar-te um santo!”

***************

CENA SEIS

(Antonio está entre os frades franciscano, onde é recebido com humildade e alegria)

Ferdinando – “Meus caros frades, desejaria ardentemente vestir o hábito de vossa Ordem, se me prometêsseis enviar-me logo aos país dos Sarracenos afim de que eu tenha parte na coroa do martírio”. –

Um dos frades – Sim, irmão, é com amor e humildade que te recebemos em nosso pobre ordem, encontrará entre nós os meios de buscares o martírio em nome de nosso ideal, como queres, toma estas vestes e o teu novo nome … -

Outo dos frades - …doravante te chamaremos de Antonio…
FERDINANDO – Irmãos, nenhum sacrifício será pouco para que demonstre minha fé em perseguir os ideais que perseguem…

(Os frades abraçam e beijam Ferdinando, agora Antonio)

***************


CENA SETE

(Antonio está a rezar com um grupo de outros franciscano, de joelho. De repente, sente tonteiras e cai ao chão. Os irmãos o acolhem e levam para um catre. No catre delira e arde em febre)


Um frade – Irmão, ardes em febre… -

Antonio – Rezai por mim, irmãos, não deixeis que eu morra sem dar testemunho de minha fé…

Outro frade – Sossegai, irmão, esta febre logo passará… Amanhã acordarás são e alegre como sempre… Toma este chá, te aliviará as dores e te passará a febre…(Dá um xícara com uma beberagem) –

Antonio – (Bebendo o chá da xícara que lhe deram) Tomara, irmão, tomara…

(Os frades fazem vigília junto ao leito de Antonio. Continua com febre alta e delirando)

Um frade – (Auscultando a temperatura de Antonio com a mão) - Irmão Antonio, não melhoras, achamos que terás que voltar a Portugal… Lá terás como melhorar, o clima da África não te fez bem…

Antonio – Sim, irmãos, se for para ficar aqui como um estorvo e atrapalhar vossa missão, é melhor que eu volte para casa…

Um terceiro frade – Nosso irmão Carlos te acompanhará em tua viagem de volta, irmão…

Irmão Carlos – Sim, irmão Antonio, te levarei de volta para casa… Levanta-te, anda…

(Antonio levanta-se do leito com a ajuda dos irmãos e sai da cena apoiando-se no irmão Carlos)

*************

CENA OITO


(Irmão Carlos e Antonio estão rezando compungidamente no convés da caravela)

Irmão Carlos – Que sorte a nossa, irmão Antonio, não pudemos dar o testemunho de nossa fé como martires em terras da África e a cólera destas águas nos quer levar paras as profundas de seu ventre… -

Antonio – Irmão Carlos, Deus sabe que não merecemos a glória do martírio e talvez nos queira junto de si com simples náufragos… -

Irmão Carlos – Nos conformemos com o destino que a providência nos queira dar, irmão…

Antonio – Sim, irmão, peçamos a Deus que nos ilumine nesta hora derradeira…




***********

CENA NOVE

Comentário: nesta cena vemos a perplexidade dos irmãos Carlos e Antonio em perceberem que a terra a que tinha aportado a caravela que os levava de volta para casa, não era Portugal, mas sim, a Sicília, na Itália.

Antonio – Irmão, porque o destino quis nos trazer para a Itália? –

Carlos – O destino talvez nos queira fazer encontrar pessoalmente nosso pai, irmão… WALISSON

Antonio – Será que merecemos de Deus essa honra, irmão?

(Um grupo de frades franciscano se aproxima dos dois)

Um franciscano – Sejam benvindos, irmãos, à nossa pátria…
Soubemos que a caravela que os trouxe enfrentou violenta tempestade…

Antonio – Sim, irmão, escapamos de morrermos vítimas dessa tempestade… estamos felizes de estarmos no meio de vós, patrícios de nosso mestre, depois de tanta atribulações…

Outro franciscano – Estejai em casa, irmão, em breve podereis ver nosso mestre em carne e osso, aproxima-se um capítulo de nossa ordem em Assis, berço do Poverello…
*****************

CENA DEZ

Comentário: nesta cena os Carlos e Antonio estão em Assis, participando do Capítulo da ordem conhecido como o Capítulo das Esteiras. Um multidão de três mil frades vindos de toda a Europa)

Carlos – Irmão, vamos tentar ver nosso mestre… e beijar-lhe a mão, se possível…

Antonio – Conformai-vos, irmão, somos dois pobres irmãos portugueses obscuros e desconhecidos… se pudermos avistá-lo de longe, nos daremos por felizes…
Carlos (Apontando com mão) Olha lá, irmão, o nosso pai Francisco!

Antonio – Como sabeis que é ele, irmão?

Carlos – Não vistes o irmão Elias, o vigário geral da ordem…
Ele está lá, ao lado do Poverello…

Antonio – Ainda não recuperei minhas forças, irmão…

Carlos – Nosso pai também está muito fraco e doente…





CENA ONZE


(Frades franciscanos participam de uma cerimônia de ordenação de padres da ordem dos Dominicanos. O provincial dos franciscanos solicita a Antonio que saúde os irmãos dominicanos que se ordenam. Antonio a princípio hesita, o Provincial insiste e ele finalmente faz seu discurso)

PROVINCIAL – Irmãos franciscanos e irmãos dominicanos, estamos neste dia especial em que se ordenam sacerdotes estes irmãos dessa ordem tão querida da nossa... Pedimos ao nosso irmão Antonio, que faça uma saudação aos nossos irmãos dominicanos.

ANTONIO (Hesitante, a princípio, a medida que fala, vai se soltando e a eloqüência e conhecimento que traziam consigo afloram) – Irmãos, começai hoje uma tarefa que só a poucos é entregue... A tarefa de semear a palavra do Senhor através do exemplo da fé, da caridade, do amor, da fraternidade, do perdão e da obediência... A palavra do Senhor sem as obras do Senhor de nada adiantam... A palavra, se convence, só o exemplo é capaz de transformar e modificar os que vivem nas trevas do pecado e do erro... Sacerdotes de Cristo têm a missão de acima de tudo, testemunhar com o exemplo de uma vida virtuosa, a graça que recebeu na sua ordenação...
IRMÃO DOMINICANO (Sussurando ao ouvido do Provincial) Quem é este irmão que fala com tanta sabedoria, irmão Provincial?

PROVINCIAL – É um obscuro irmão português, afeito às lides mais humildes em nosso convento... Surpreende-me sua sabedoria e eloqüência...

ANTONIO (Prosseguindo sua falação) - ...contai, porém, com a ajuda da espiritualidade que estará ao vosso lado, nos momentos mais difíceis porque passareis, no testemunho de fé que a vida religiosa vai exigir de vós... Nosso Pai Jesus não vos haverá de abandonar nessa missão... O seu sacrifício no Gólgota é para nós o exemplo maior do desprendimento e da paixão Dele pela humanidade... humanidade sofrida e amargurada que precisa do nosso amparo para sentir Cristo e seu sacrifício em suas vidas... na sua busca duma vida dedicada ao próximo e a Deus...


(Encerrada a fala de Antonio, é cumprimentado por todos os presentes)

PROVINCIAL (Abraçando Antonio) Parabéns, Antonio, nos surpreendestes a todos, com tua eloqüência e sabedoria... Doravante te pedimos que uses mais vezes da palavra

IRMÃO DOMINICANO – Parabéns, irmão Antonio, tua fala tinha a sabedoria dos santos...

(Antonio ajoelha-se e reza humildemente)




CENA DOZE

(Alvoroço no mosteiro. Duas mulheres são encontradas pelos monges dentro do dispensário. Dois monges entram no escritório do Prior com a notícia)

UM DOS MONGES – Prior, há duas mulheres escondidas no dispensário

PRIOR – Duas mulheres? Que fazem essas mulheres no mosteiro

OUTRO MONGE – Elas entraram no mosteiro sem nosso conhecimento...
UM DOS MONGES – Dizem que foram espancadas pelos maridos...

PIOR – Por Cristo Jesus, tragam-nas a minha presença...


(Os dois monges saem e voltam com as duas mulheres)

PRIOR – Onde estão vossos maridos, mulheres?

UM DOS MONGES – Os dois maridos estão a procura de suas mulheres na porta do mosteiro, irmão Prior, a notícia de que se esconderam no mosteiro andou rápida...

OUTRO MONGE – Trago os maridos das mulheres a vossa presença, irmão Prior?


PRIOR – Faça isso por caridade, irmão... (Para as mulheres) Que motivos destes para que vossos maridos as espancassem, senhoras?

UMA DAS MULHERES – Nossos maridos nos espancam por qualquer motivo, senhor... - CRISLAINE

OUTRA MULHER – Quando voltam das viagens nos acusam de termos lhes traídos...



(Os maridos das mulheres adentram o escritório do Prior)

UM DOS MARIDOS – Senhor, pedimos perdão pelo que fizemos a nossas mulheres... –

OUTRO MARIDO – Prometemos-lhe que não voltaremos a espancá-las...

PRIOR – O que os fez reconhecerem o erro tão rápido assim, senhores?.

UM DOS MARIDOS – Nossas crianças, senhor...

OUTRO MARIDO – Não nos deixaram dormir a noite inteira...

PRIOR – Ah, sim... Então, não voltem a espancar as mães dos vossos filhos, senhores...
Já pensastes em ter que cuidar das crianças toda vez que elas fugirem de casa porque as espancaram?

OS DOIS MARIDOS – Senhor, vos prometemos que não espancaremos mais nossas mulheres!!!.


CENA 13

(Antonio está a fazer uma pregação sobre o casamento)

ANTONIO – Meus irmãos, o santo sacramento do matrimônio é a presença de Deus nas famílias, abençoando os lares e acolhendo os filhos que daí lhe advém... Há que se ter como algo sagrado e necessário para que sejam transmitidos os hábitos cristãos do amor e da tolerância que deve se estender a todos que habitam um lar digno de merecer o nome de cristão... -


(Duas mulheres que escutam a fala de Antonio se comportam de forma inquieta. Um monge vai até elas e tenta acalma-las. Antonio percebe o incidente, interrompe sua fala e indaga o motivo da inquietação das mulheres a um irmão que tenta acalmá-las)

ANTONIO – Porque estas mulheres estão tão inquietas, irmão? -

UM IRMÃO – Elas querem te fazer um pedido em especial, irmão!

ANTONIO – Que pedido especial querem me fazer estas mulheres, irmão?

UM IRMÃO – Querem pedir tua intercessão a Deus para que consigam casar-se, senhor...

(Uma das mulheres se adianta e fala diretamente a Antonio)

UMA DAS MULHERES – Irmão, corre a lenda que sois capaz de arrumar maridos para mulheres que estão solteiras... –

OUTRA MULHER – (Faz o mesmo que a outra) ... já estamos muito velhas e queremos nos casar, senhor, intercedais a Deus para que consigamos nosso intento...

ANTONIO – Irmãs, não levai a sério esta lenda... Se Deus ainda não vos deu maridos, não vai ser por minha intercessão que conseguireis... Não vejais isso como uma punição... As mulheres têm a missão da maternidade como um dever sagrado que Deus lhes dá... Se elas não se casam e nem têm filhos, não é por isso que elas não podem ser mães... O mundo está cheio de filhos sem mães... Crianças órfãs e abandonadas carecendo de carinhos maternos... Já pensastes em vos dedicar aos cuidados dessas crianças? Já pensastes em tomar como maridos ao nosso Senhor Jesus e vos dedicar a vida aos santos misteres da vida religiosa? Pensai nisso, irmãs... Não posso fazer mais por vós que orientá-las para que encontrem Deus e vivam para cuidar dos vossos irmãos que carecem da proteção materna, toda a humanidade que sofre e precisa da presença de Deus em suas vidas...

UMA DAS MULHERES – Sim, senhor, abriste-nos os olhos para uma realidade que nos era alheia...

OUTRA MULHER – Agradecemos-te por isso, senhor...



CENA 14

(Antonio chega a casa de homem, para fazer a oração fúnebre dele, cujo corpo está exposto na sala onde entra. É recebido por uma mulher)

MULHER – Entrai, senhor, te recebemos para fazeres a oração fúnebre de meu marido... -

ANTONIO – Em nome de Deus, aqui estou para fazer isso...(Silêncio, acercando-se do cadáver) qual a profissão de teu marido? -

MULHER – Meu marido era prestamista, senhor...

ANTONIO – Meus irmãos, farei a oração fúnebre deste homem cuja alma já não pertence mais ao mundo da matéria, relembrando-vos a Sagrada Escritura, em Mateus, 6,21, onde está dito que “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração”... (Silêncio) Em verdade, em verdade vos digo, senhores, o coração deste homem não está mais em seu corpo...

MULHER – Como assim, senhor, dizeis que o coração de meu marido não está mais em seu corpo?

OUTRA MULHER – Onde está o coração deste homem, senhor? -

UM HOMEM – Queres que abramos o peito deste homem para verificarmos que o seu coração não está mais em seu corpo, senhor? -

ANTONIO – Não é preciso, homem, basta que procures o coração deste homem onde ele guardava seu dinheiro...

MULHER – Procuremos o coração de meu marido no seu cofre, então... (A mulher vai até ao cofre junto com o homem)



HOMEM (Tirando de dentro do cofre, o coração do homem) – É verdade, senhor, o coração deste homem estava em seu cofre, não mais em seu peito... -

ANTONIO – Rezemos pela alma deste homem que de tão apegado ao seu dinheiro, nem seu coração levou em seu corpo para que a terra o comesse... Meditemos sobre a necessidade de guardarmos no cofre de nossa alma, os tesouros que a morte não destrói, os tesouros que possamos levar para o mundo dos mortos que renascem na eternidade para viverem uma vida plena de gozos celestiais, porque não estavam apegados a tesouros que a traça rói e o ferrugem consome...

TODOS – Amém, senhor...

CENA QUINZE

(No interior do mosteiro onde vive Antonio, ele recebe das mãos do prior
uma carta escrita de próprio punho pelo criador da ordem franciscana,
o santo de Assis)

PRIOR – Irmão Antonio, passo-te às mãos uma carta enviado pelo nosso pai Francisco...

ANTONIO (Recebendo do prior um papel, que lê em silêncio) - Irmão, queres que compartilhe o teor desta carta com nossos irmãos de mosteiro? Sou muito insignificante para merecer do Poverello uma carta desta sem me sentir obrigado a dividir o que ela diz com meus irmãos de ordem...

PRIOR – Irmão, não és obrigado a revelar o teor da carta que a ti manda o nosso Pai, mas se o quiseres fazer, faz...

ANTONIO – (Lendo a carta) – “Ao irmão Antonio, meu bispo, eu, Francisco, envio minha saudação. Julgo conveniente que ensines a nossos irmãos a Sagrada Teologia; desde que não negligenciem, por este estudo, o espírito da santa oração, de acordo com a Regra que professamos. Adeus”

PRIOR – Agradecemos-te, Antonio, por esta demonstração de humildade e respeito aos teus irmãos...

(Entra em cena um franciscano, dirige-se a Antonio)

FRANCISCANO – Irmão Antonio, está aí um homem que te quer falar...

ANTONIO – Quem é este homem, irmão?

FRANCISCANO – É um daqueles homens sábios com quem discutias ontem na praça...

ANTONIO - Com sua permissão, Prior, faça-o entrar irmão...

(Homem adentra o palco cumprimentando os presentes)

HOMEM SÁBIO – Padre Antonio, gostaria que me explicásseis sobre a natureza da divindade, não creio que o que dizes tenha algum fundamento filosófico, acho as idéias que professas muito vagas e simplórias...

ANTONIO – Senhor, tens o conhecimento científico e filosófico que eu e meus irmãos não temos... Não poderemos te esclarecer sobre a natureza de Deus com teus argumentos... Somos incapazes disso...

HOMEM SÁBIO – Quer dizer então, que reconheces que não és capaz de esclarecer sobre a verdadeira natureza da divindade, Padre?

ANTONIO – Senhor, o que te digo é que não se chega ao conhecimento de Deus através do raciocínio ou da razão... O conhecimento de Deus nasce dos sentimentos que saem do coração... São sentimentos que não precisam ser explicados, mas sim vividos... A prática da compaixão, da tolerância, do perdão, da solidariedade, do respeito ao próximo, é o que nos leva a Deus... Deus está no final da estrada que se trilha através desses sentimentos... Só chegaremos a Ele se trilharmos esses caminhos... De nada nos adiantará termos o conhecimento que tivermos para tentar entender Deus... Deus não é uma experiência que se sabe... mas uma prática que se vivencia... A piedade, a tolerância, a paciência, a compreensão que Deus tem pra com nossas fraquezas é que pode nos inspirar a nos confundirmos com a natureza de Sua essência, pela vivência desses sentimentos...

Brasília DF/maio de 2008-Campo Maior Pi/maio de 2009.

Autor: Zeferino Alves Neto (ZAN)

Nenhum comentário:

Postar um comentário